Caro leitor,
Este texto será um pouco diferente dos demais. É para você, leitor articulado e informado sobre esportes. Ou para a leitora que acompanha as emocionantes rodadas de futebol à la Velho Oeste. Ou para aquelas crianças (algumas não tão novas assim, fato) que viajam ao lado do sobrinho imaginário de José Roberto Torero em suas aventuras no tempo e espaço. É também para quem adorou ou detestou os curtas, o filme e a produção audiovisual de Torero.
Mas por quê, vocês iriam perguntar? E eu lhes respondo: porque Torero, em sua máxima de evitar as obviedades do jornalismo (principalmente do esportivo), utiliza largamente a interlocução e eu, na posição de uma mera estudante e crítica de Torero por alguns meses, resolvi me valer desse recurso. Mas quais são os motivos desse uso? Poderia listá-los aqui e o esperto leitor e a experiente leitora certamente saberão escolher a alternativa que mais lhe agrada.
1) Um texto metalingüístico possui, por razões até então não decifradas, um grande apelo
Estudante-e-projeto-de-jornalista, você não gosta dos bastidores da notícia, uma matéria que mostra como uma matéria é feita? Se você respondeu não mas tem uma leve simpatia por “Profissão Repórter”, sinto lhe informar mas você é um mentiroso. Imagine, leitor, que Torero muda, no meio da leitura, os rumos da narrativa. A impressão é de que o texto está sendo moldado de acordo com a reação de quem lê. Se até o primeiro parágrafo você não gostou do texto, calma! Torero dá um jeito de alterar essa situação.
“Usando túnicas celestes, surgem homens destemidos como Maldonadus e Recifius, famosos por sua valentia. E isso sem falar de Aristizábalo e Maurinhus, combatentes que, inclusive, já lutaram no exército inimigo. As duas hostes se aproximam lentamente do centro da arena, levantam suas espadas e… Não, não, a comparação não ficou boa. É melhor tentar outra coisa. Pensemos numa cena de faroeste: A cidade está em silêncio. Todas as janelas estão fechadas. Um rolo de palha seca cruza a poeirenta rua central” trecho de O Duelo, in Folha de S. Paulo, 19/09/03
E isso acontece repetidas vezes. Quando as idéias se esgotaram, Torero comenta que Lelê, seu sobrinho imaginário, poderia substituí-lo na coluna da semana, como já fez diversas vezes. Ou então Torero traria Zé Cabala, suas histórias e personagens. A preocupação na escrita de um comentário é tão grande que vira quase o comentário em si.
Mas atente, leitor! Mais do que uma coluna confessional, isso é um truque para driblar a mesmice do jornalismo esportivo. Seria como uma análise que utiliza a ferramenta empregada naquilo que está sendo analisado.
2) Para incluir o leitor
Claro que ninguém escreve para não ser lido. Ninguém faz um filme para não ser visto. Para Torero, é mais que apenas ser percebido, é pressupor a participação do leitor nessa empreitada. A “Toreroteca” do blog , os textos dos internautas postados semanalmente aos domingos , a linguagem impessoal, os comentários das postagens e as enquetes são apenas algumas das ferramentas usadas para incluir você, querido leitor, no que Torero faz. Ao se ver no texto, o leitor se interessa mais. Sim, um ímpeto de egocentrismo natural a todos os bípedes com polegares opositores. Mas que funciona (vide os inúmeros comentários do blog).
É bom imaginar que o jornalista do outro lado do texto pensou em vocês, admiradores do caderno esportivo, para redigir os parágrafos. E Torero pensa, sim, em vocês. Ou pelo menos, finge que pensa. Torero também prepara o leitor para o que virá em seguida. É um anúncio que fica engraçado e dá a noção de que o jornalista está aí na sua frente, e não que aquele texto foi escrito horas antes de você abrir as páginas do jornal.
“Caro leitor, cara leitora, sentem-se confortavelmente. vou contar-lhes uma história” Anãozinho, o quase gigante in Folha de S. Paulo, 02/08/02
É aqui também que o jornalista se firma em uma suposta resposta, escrevendo o texto de acordo com a reação que o leitor imaginado por ele teria. Sabe aquele tipo de texto que necessita de um resposta imediata? Esse tipo mesmo, em que a frase seguinte responde a anterior, simulando uma resposta do leitor.
“O leitor deve conhecer algum cara meio feio e muito tonto, mas tão seguro de si que acaba sempre namorando as moças mais interessantes. Sim, eles são odiosos” Fiiiiiiiiiiiiiu… Pou! in Folha de S. Paulo, 06/06/03]
Claro que isso implica em uma condição: a participação de terceiros. Se você não quiser participar, ou simplesmente não estiver afim de, o texto pode soar um tanto pretensioso demais.
4) Para dar voz a entidades que provavelmente não se pronunciariam no blog/coluna/vídeo*
Ricardo Teixeira, Deus, o Diabo e a Barbie conversam com Torero. Tá, isso não é verdade, mas e daí? Por vezes, é difícil delimitar o que é verdade do inventado em Torero. Mas uma coisa é certa: há sempre uma crítica a se fazer (mesmo que esteja contida em uma suposta carta de Ricardo Teixeira aos leitores da Folha). Torero se desculpa com os leitores. Mas não tanto.
“PS: Aos leitores que piamente acreditaram nas palavras acima, lembro que hoje é o dia 1º de abril” Carta aberta ao torcedor in Folha de S. Paulo, 01/04/03
Ricardo Teixeira é motivo de reclamação de uma carta de Torero supostamente destinada ao ministro do Trabalho, por uma interferência do presidente da Confederação Brasileira de Futebol na sua área humorística.
“(…) é com grande pesar que vejo o senhor Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol, intrometer-se em nossa área. Sim, senhor ministro, porque outra não pode ter sido sua intenção ao dizer que a Copa do Brasil deste ano pode vir a ser disputada por 128 clubes. Creio, portanto, não ser preciso provar que isso é uma piada e que, sendo uma piada, não poderia sair de sua boca sem, pelo menos, a chancela de um humorista responsável” Carta ao ministro do Trabalho in Folha de S. Paulo, 22/02/2000
Agora me responda, esperto leitor. Essa não é uma crítica (com humor, mas ainda sim uma crítica)? Se sim, por que não tem uma grande repercussão quanto uma crítica aberta teria? Porque críticas assim não são levadas a sério. As entrevistas com entes, objetos e sentimentos dos episódios de “Cantos Gerais” que Torero participou são, como apontou nosso colega de blog, uma maneira de expor as opiniões sem dar a cara pra bater. Ou de se posicionar sem levantar reações negativas.
“Caro colunista. Ordeno que você publique essa carta na próxima terça-feira, dia 14 de abril. O motivo é muito simples: é o dia do aniversário de 86 anos do Meu time de coração, o Santos Futebol Clube” Um aniversário divino in Folha de S. Paulo, 14/04/98
Este é um fragmento de um e-mail que o santista Torero diz ter recebido de “deus@ceu.com”. O texto segue com um breve histórico do Santos, sob a voz de Deus. Imagine agora que um colunista esportivo da Folha resolva defender seu time em detrimento dos demais? Revolta, balbúrdia, bombardeamento de cartas dos leitores e torcedores dos outros times. Mas como não foi ele que falou, está tudo certo. Quatro anos mais tarde, a contraposição de Deus se pronunciaria para reclamar um espaço novamente para o time de coração, o Santos.
“Sendo assim, aviso-lhe faltam poucas prestações para que o Santos resgate sua dívida e volte ser um vencedor. Aí, com mil eus!, voltarei a ser mais um torcedor aqui das profundezas, um torcedor que, como você e como tantos outros, quer apenas ver o Santos sendo campeão. É tudo. Aceite, por favor, um caloroso abraço deste seu futuro anfitrião, Lúcifer” Um aniversário infernal in Folha de S. Paulo, 12/04/02
*está certo, provavelmente não se pronunciariam porque alguns não têm sua existência comprovada.
5) Para falar sem dizer o mesmo
“O que você prefere, glutão leitor? O que é que mais gosta, faminta leitora? Comer a mesma comida todos os dias ou variar? Se você não é um leão, uma hiena ou um gaúcho, certamente preferirá a segunda opção. No entanto, se o assunto é esporte, nós, os brasileiros, somos monocultores, monocórdicos e monótonos. Só queremos saber de futebol” Peixe cru e queijo mofado in Folha de S. Paulo, 04/08/03
Como falar de esporte sem citar o futebol, no país que não foi o criador da modalidade, mas que vive de futebol a semana inteira? Em “Peixe cru e queijo mofado”, há esse questionamento. Ser jornalista esportivo no Brasil já é complicado. Basta dar uma olhada nas páginas de esporte dos ditos grandes jornais e comparar o espaço dedicado ao futebol e a qualquer outro. Agora, ser um comentarista de futebol por tantas rodadas sem fazer textos idênticos (mudando apenas o resultado e times) parece quase impossível.
Neste ponto, a forma adquire sim uma importância no jornalismo. Trabalhar com ela é fundamental para não dar aos jornais a mesma cara de manual de redação.
“…aposto que há vezes em que você nem passa os olhos por estas páginas esportivas. Ou, se passa, dá apenas uma olhada rápida nas notícias sobre seu time. Aposto que há dias em que você acorda um tanto mais sério e prefere ler o Clóvis Rossi, os editoriais, e os últimos acontecimentos no Brasil e no mundo. No dia do atentado ao WTC, por exemplo, só um fanático procuraria saber se o seu zagueiro tinha recebido o terceiro cartão amarelo. O esporte, nestes dias, fica relegado à sua desimportância. Pois confesso que comigo se dá o mesmo” Seda chinesa in Folha de São Paulo, 02/04/02
E a impessoalidade do jornalismo, cadê? Ele fica lá em um cantinho, junto com os demais textos jornalísticos, esportivos. Sim, aqueles que você apenas passa o olho sem efetivamente ler.
Até uma outra hora.
Atenciosamente.
V.