“Basicamente, era um programa de entrevistas com convidados, digamos, incorpóreos…como o amor, a pizza ou a morte. Ou até eu mesmo. O programa não tinha verba, então saia mais barato do que trazer celebridades.” José Roberto Torero
É Torero, não adianta negar que a declaração acima é sua sim – e a minha fonte é confiável, idônea e sem fins lucrativos, sendo, no caso…eu mesmo, presente em uma palestra sobre crônicas, onde o outro convidado era o Marcelo Rubens Paiva, em 2006, na ECA/USP.
Parte da série Cantos Gerais, do Canal Brasil, o Canto do Torero de fato tinha (o programa ainda existe, mas a participação de Torero é de 2005) produção mínima: cenário minimalista, duas poltronas e um fundo vermelho, com Torero à esquerda e o “convidado”, que pode ser uma barbie, a morte ou a vagina à direita.
Numa espécie de paródia de talk-show, o que se percebe ali é, em verdade, uma maneira enviesada de Torero encarar as câmeras. O diálogo ali exposto nada mais é do que um texto, em moldes de diálogo e que traz ao expectador uma inversão de papéis engenhosa. Pense: se Torero é quem escreve o texto, são dele as idéias que ali circulam através do “entrevistado”. Só que, ao vestir a persona de repórter, do ser dotado da imparcialidade e curiosidade sobre o que pensa o convidado, cria-se um artifício no qual, em contraponto inclusive à proposta da série (A coluna televisiva do Canal Brasil abre espaço para que personalidades da cena cultural brasileira se expressem livremente sobre assuntos de sua própria escolha, diz a chamada), o autor “não dá a cara pra bater”, inverte os papéis e de lambuja cria um mise en scène absurdo, atraente e…barato.
No episódio Torero entrevista a Vagina, o diálogo é de tal forma costurado, “encaixado”, que os 3:45 min. de duração do programa se transformam numa sucessão seqüencial de perguntas e respostas abarrotadas de duplos sentidos e trocadilhos infames. Como numa bola levantada com perfeição para o chute – sem goleiro -, cada pergunta dá a deixa para uma resposta sacana, que por sua vez levanta a bola para a tréplica maliciosa, e assim vai.
Em números, são 17 piadinhas e/ou tiradas de cunho sexual distribuídas em 225 segundos, mais ou menos uma a cada 13 segundos.
Representada por um pedaço de manequim de loja acrescido de um naco de peruca, que faz as vezes de uma vasta penugem negra, a vagina é entrevistada com status de agente histórico: é por causa dela que os homens lutam, morrem, criam grandes invenções e põem seus dotes artísticos para funcionar. Ela, a coisa mais desejada pelos homo sapiens (“e por algumas mulheres sapiens também!”), a mola propulsora no desenvolvimento da sociedade. Que fica irritada (olha o trocadilho) com depilação, que finalmente recebeu vistas como obra de arte (antes só recebia os artistas), a porta de entrada no mundo para todos nós, do cara que escreve este texto ao entrevistador.
Não creio que a intenção de Torero tenha sido a de discutir o papel da entrevista no jornalismo, nem algo que se assemelhe, em austeridade e cientificismo. Parece sério demais para um texto, com moldes de paródia e corpo de riso, munido de elementos típicos das narrativas do autor: alusão histórica, foco no personagem secundário (ou no caso, no ente-não-animado, ainda que para a vagina entrevistada animação não falte, mesmo) e um pé (nunca os dois) na vontade de divertir.
Fui desmascarado! Realmente, a idéia era fugir de fazer afirmações taxativas. Acho que não tenho cecife para tanto e inventei estas falsas entrevistas para poder falar bobagens sem medo.
GEEEEEEENIIUUUUS!
O Torero inventa entrevistas com figuras tarimbadas e é exaltado. O FurrECA fez o mesmo e foi ameaçado de morte. Oh, godt.