Há coisas que nunca poderemos fazer com nós mesmos. Nunca poderemos nos ver pessoalmente (ver realmente, em carne e osso, sem ser imagem do espelho ou vídeo), nunca conseguiremos nos beijar ou dançar com a gente mesmo. E se entrevistar é uma delas: deve ser curioso para qualquer jornalista saber como você se portaria em uma entrevista feita por si mesmo.
Pois Torero conseguiu. Graças aos recursos áudio-visuais e à criatividade, Torero se incluiu como convidado para o programa de entrevistas Cantos Gerais – O canto de Torero.
Torero foi a primeira pessoa a ser entrevistada para o programa, porém foi o último programa a ir ao ar. Isso porque todos os outros convidados eram coisas inanimadas, como o amor, a pizza, a vagina ou até mesmo a boneca Barbie.
Esse Torero Entrevista cujo entrevistado é o próprio Torero não é diferente dos outros: uma linguagem jocosa, que fica ainda mais engraçada com expressão séria do jornalista, que faz perguntas gerais, sempre com trocadilhos dependendo de quem é o convidado. Dessa vez, o teor é auto-crítico, pois Torero pergunta a si mesmo como foi fazer o programa. É, com certeza, um texto completamente metalingüístico, revertendo sempre a si mesmo, como o óbvio do que se esperava numa entrevista com o próprio “eu”.
Aqui, não vemos apenas Torero conversando consigo mesmo, mas principalmente Torero conversando com o “eu”. Esse “eu” não é só a pessoa Torero e sim um “eu” de cada um, como se nós estivéssemos conversando com nosso eu da mesma forma que o entrevistador. Temos a sensação, enquanto vemos a entrevista, de como seria se estivéssemos conversando conosco.
É nesse ultimo programa da série que Torero se auto pergunta sobre o porquê de fazer um programa como Cantos Gerais. E a resposta, é claro, é a vaidade por si mesmo: o jornalista coloca em questão o ego que faz todos quererem aparecer na tv. Os outros motivos também circulam na pessoa de Torero: ser amado (todos fazem obras para serem amados e elogiados, novamente o ego presente), influir e vencer a morte. Sobre influir, esse é um tema que encaixa muito bem na vaidade das pessoas e no jornalismo. O jornalismo, tido como profissão que será formadora de opinião, traz em seu nome uma carga que afeta diretamente no ego: quem não quer que sua opinião seja aceita e acatada em praticamente tudo? Ser um gerador de opinião faz do jornalismo uma profissão muito atraente. Torero não foge desse atrativo quando dá, como um dos motivos de fazer o programa, o ato de influir como algo chamativo.
Porém, nesses motivos que o jornalista se explica como importantes para a realização de Cantos Gerais, apenas o último foi vitorioso. Torero acredita que ter sua imagem gravada em um programa, que poderá ser visto mesmo depois que ele já tenha falecido (nem que seja no mesmo dia de sua morte, como uma homenagem), é de certa forma uma maneira de vencer a morte. Como a própria morte disse em outro “Torero Entrevista”, quando ela foi a convidada, o objetivo de todos é ser imortal.
A entrevista é cheia de piadas que servem tanto para envaidecer quanto para mostrar o lado de auto-censura. Essa última é feita com recursos que desmistificam o ego. A auto -crítica vem desde começo, quando Torero diz que, pelo fato do programa “não ter uma verba muito farta”, o convidado não é uma pessoa muito interessante. No meio da entrevista, Torero também diz que o programa seria melhor se tivesse sido feito por um cara bom, mostrando novamente a modéstia ou a crítica a si mesmo. O estranho é que o entrevistado, sendo também o alvo da crítica, não se ofende quando Torero se critica. Acho que, se um entrevistado fala mal do entrevistador, o último teria pelo menos uma resposta mais seca pronta para rebater e se defender. Então, creio que teria sido mais convincente se Torero dissesse algo como ” Perai, agora você tá ofendendo meu trabalho” ou coisa do gênero, como se a ofensa não viesse dele e sim de qualquer outro entrevistado. Isso, inclusive, mostraria como nós não aceitamos opiniões que, muitas vezes, vêm da gente mesmo. Mas acredito que não era objetivo de Torero dar essa impressão ou suscitar divagações: ele estava entrevistando ele, e pronto. Sem falar que não haveria motivo do entrevistador se zangar, já que no começo ele também diz que o entrevistado não é lá grande coisa. Ficaria uma briga interna que tiraria o foco da entrevista. A crítica, que não cai apenas em si, mas também sobre o programa (Torero até cita a equipe que se atrasava), serve principalmente como arma para fazer o humor.
Os comentários sobre outros programas trazem uma espécie de retrospectiva com pequenas frases, em forma de trocadilho, sobre outras entrevistas. Citações como “A (entrevista) do pênis foi bem penetrante” formam o diálogo sobre os programas anteriores.
Em contraponto com a auto-crítica, há a vaidade e o orgulho próprio que permeia a relação do entrevistado e do entrevistador. Tanto que, no fim da entrevista, vemos uma bajulação de um pelo outro, que antecede uma discussão de Torero com ele mesmo.
Elogios, vaidade ou auto-censura, a entrevista de Torero por Torero é bem feita por mostrar exatamente essa relação dúbia que todos tem consigo mesmo: nunca nos amamos completamente, pois sempre colocamos nossos atos em cheque ou criticamos ações passadas; em compensação, nunca nos odiamos completamente, pois há em todos uma força de egoísmo e auto-apreciação iminentes. Embora o literal seja impossível, de certa forma estaremos, sempre, nos entrevistando.