José Roberto, ele mesmo e Torero

7 12 2008

Há coisas que nunca poderemos fazer com nós mesmos. Nunca poderemos nos ver pessoalmente (ver realmente, em carne e osso, sem ser imagem do espelho ou vídeo), nunca conseguiremos nos beijar ou dançar com a gente mesmo. E se entrevistar é uma delas: deve ser curioso para qualquer jornalista saber como você se portaria em uma entrevista feita por si mesmo.

Pois Torero conseguiu. Graças aos recursos áudio-visuais e à criatividade, Torero se incluiu como convidado para o programa de entrevistas Cantos Gerais – O canto de Torero.

Torero foi a primeira pessoa a ser entrevistada para o programa, porém foi o último programa a ir ao ar. Isso porque todos os outros convidados eram coisas inanimadas, como o amor, a pizza, a vagina ou até mesmo a boneca Barbie.

Esse Torero Entrevista cujo entrevistado é o próprio Torero não é diferente dos outros: uma linguagem jocosa, que fica ainda mais engraçada com expressão séria do jornalista, que faz perguntas gerais, sempre com trocadilhos dependendo de quem é o convidado. Dessa vez, o teor é auto-crítico, pois Torero pergunta a si mesmo como foi fazer o programa. É, com certeza, um texto completamente metalingüístico, revertendo sempre a si mesmo, como o óbvio do que se esperava numa entrevista com o próprio “eu”.

Aqui, não vemos apenas Torero conversando consigo mesmo, mas principalmente Torero conversando com o “eu”. Esse “eu” não é só a pessoa Torero e sim um “eu” de cada um, como se nós estivéssemos conversando com nosso eu da mesma forma que o entrevistador. Temos a sensação, enquanto vemos a entrevista, de como seria se estivéssemos conversando conosco.

É nesse ultimo programa da série que Torero se auto pergunta sobre o porquê de fazer um programa como Cantos Gerais. E a resposta, é claro, é a vaidade por si mesmo: o jornalista coloca em questão o ego que faz todos quererem aparecer na tv. Os outros motivos também circulam na pessoa de Torero: ser amado (todos fazem obras para serem amados e elogiados, novamente o ego presente), influir e vencer a morte. Sobre influir, esse é um tema que encaixa muito bem na vaidade das pessoas e no jornalismo. O jornalismo, tido como profissão que será formadora de opinião, traz em seu nome uma carga que afeta diretamente no ego: quem não quer que sua opinião seja aceita e acatada em praticamente tudo? Ser um gerador de opinião faz do jornalismo uma profissão muito atraente. Torero não foge desse atrativo quando dá, como um dos motivos de fazer o programa, o ato de influir como algo chamativo.

Porém, nesses motivos que o jornalista se explica como importantes para a realização de Cantos Gerais, apenas o último foi vitorioso. Torero acredita que ter sua imagem gravada em um programa, que poderá ser visto mesmo depois que ele já tenha falecido (nem que seja no mesmo dia de sua morte, como uma homenagem), é de certa forma uma maneira de vencer a morte. Como a própria morte disse em outro “Torero Entrevista”, quando ela foi a convidada, o objetivo de todos é ser imortal.

A entrevista é cheia de piadas que servem tanto para envaidecer quanto para mostrar o lado de auto-censura. Essa última é feita com recursos que desmistificam o ego. A auto -crítica vem desde começo, quando Torero diz que, pelo fato do programa “não ter uma verba muito farta”, o  convidado não é uma pessoa muito interessante. No meio da entrevista, Torero também diz que o programa seria melhor se tivesse sido feito por um cara bom, mostrando novamente a modéstia ou a crítica a si mesmo. O estranho é que o entrevistado, sendo também o alvo da crítica, não se ofende quando Torero se critica. Acho que, se um entrevistado fala mal do entrevistador, o último teria pelo menos uma resposta mais seca pronta para rebater e se defender. Então, creio que teria sido mais convincente se Torero dissesse algo como ” Perai, agora você tá ofendendo meu trabalho” ou coisa do gênero, como se a ofensa não viesse dele e sim de qualquer outro entrevistado. Isso, inclusive, mostraria como nós não aceitamos opiniões que, muitas vezes, vêm da gente mesmo. Mas acredito que não era objetivo de Torero dar essa impressão ou suscitar divagações: ele estava entrevistando ele, e pronto. Sem falar que não haveria motivo do entrevistador se zangar, já que no começo ele também diz que o entrevistado não é lá grande coisa. Ficaria uma briga interna que tiraria o foco da entrevista. A crítica, que não cai apenas em si, mas também sobre o programa (Torero até cita a equipe que se atrasava), serve principalmente como arma para fazer o humor.

Os comentários sobre outros programas trazem uma espécie de retrospectiva com pequenas frases, em forma de trocadilho, sobre outras entrevistas. Citações como “A (entrevista) do pênis foi bem penetrante” formam o diálogo sobre os programas anteriores.

Em contraponto com a auto-crítica, há  a vaidade e o orgulho próprio que permeia a relação do entrevistado e do entrevistador. Tanto que, no fim da entrevista, vemos uma bajulação de um pelo outro, que antecede uma discussão de Torero com ele mesmo.

Elogios, vaidade ou auto-censura, a entrevista de Torero por Torero é bem feita por mostrar exatamente essa relação dúbia que todos tem consigo mesmo: nunca nos amamos completamente, pois sempre colocamos nossos atos em cheque ou criticamos ações passadas; em compensação, nunca nos odiamos completamente, pois há em todos uma força de egoísmo e auto-apreciação iminentes. Embora o literal seja impossível, de certa forma estaremos, sempre, nos entrevistando.





Comentando comentários de Torero sobre comentários

7 12 2008

Caso alguém ainda não saiba, os comentários feitos por leitores em um blog são de responsabilidade do blogueiro. Este está, inclusive, passível de sofrer ações judiciais, caso alguém se sinta ofendido por algo que um de seus estimados leitores escreveu.

Por isso, muitos optam por uma política de mediação, onde comentários precisam passar pelo crivo do dono do espaço – o que leva alguns a taxarem o pobre blogueiro de fascista ou coisas que o valham.

O próprio Torero já declarou a respeito: “o problema do internauta é que ele se sente no direito de ser mal-educado no blog, não têm pudores em xingar abertamente, como se o esse espaço fosse algo menor, já que ele poderia ter um também”.

Se já é difícil aprovar, imagina comentar as explanações alheias. Torero, ainda que nos últimos tempos tenha se mostrado mais inclinado a tal empreendimento, é normalmente sucinto ao responder às manifestações, perguntas, crises de carência múltipla e provocações que lhes são enviadas.

Sim, não, talvez, não acredito nisso, são comentários recorrentes de Torero sobre várias questões abordadas pelos leitores. Em muito, porque talvez tudo que haja para ser dito já esteja em seus textos, e alguns se neguem a entender. Criam-se enormes polêmicas em torno de uma colocação simples (vide o texto polemiquinha, do blog). Comenta-se pouco textos com afirmativas firmes, como últimas palavras (também do blog). É difícil prever a lógica da interatividade. Até onde um escrito clama pela réplica do leitor?

Bom, nós não sabemos. Este blog, salvo eventuais visitas de Renatoesuateoriadesutiãsepeitos e do próprio Torero, é normalmente lido por nós mesmos, numa incursão quase masturbativa de auto-análise crítica. Se há táticas para trazer a interatividade, não sabemos quais são, mas andaram me contando que deixar perguntas no ar é uma técnica bastante eficiente. Eis que vos pergunto: É mesmo?





Carta ao leitor

7 12 2008

Caro leitor,

Este texto será um pouco diferente dos demais. É para você, leitor articulado e informado sobre esportes. Ou para a leitora que acompanha as emocionantes rodadas de futebol à la Velho Oeste. Ou para aquelas crianças (algumas não tão novas assim, fato) que viajam ao lado do sobrinho imaginário de José Roberto Torero em suas aventuras no tempo e espaço. É também para quem adorou ou detestou os curtas, o filme e a produção audiovisual de Torero. 

Mas por quê, vocês iriam perguntar? E eu lhes respondo: porque Torero, em sua máxima de evitar as obviedades do jornalismo (principalmente do esportivo), utiliza largamente a interlocução e eu, na posição de uma mera estudante e crítica de Torero por alguns meses, resolvi me valer desse recurso. Mas quais são os motivos desse uso? Poderia listá-los aqui e o esperto leitor e a experiente leitora certamente saberão escolher a alternativa que mais lhe agrada. 

1) Um texto metalingüístico possui, por razões até então não decifradas, um grande apelo 

Estudante-e-projeto-de-jornalista, você não gosta dos bastidores da notícia, uma matéria que mostra como uma matéria é feita? Se você respondeu não mas tem uma leve simpatia por “Profissão Repórter”, sinto lhe informar mas você é um mentiroso. Imagine, leitor, que Torero muda, no meio da leitura, os rumos da narrativa. A impressão é de que o texto está sendo moldado de acordo com a reação de quem lê. Se até o primeiro parágrafo você não gostou do texto, calma! Torero dá um jeito de alterar essa situação. 

“Usando túnicas celestes, surgem homens destemidos como Maldonadus e Recifius, famosos por sua valentia. E isso sem falar de Aristizábalo e Maurinhus, combatentes que, inclusive, já lutaram no exército inimigo. As duas hostes se aproximam lentamente do centro da arena, levantam suas espadas e… Não, não, a comparação não ficou boa. É melhor tentar outra coisa. Pensemos numa cena de faroeste: A cidade está em silêncio. Todas as janelas estão fechadas. Um rolo de palha seca cruza a poeirenta rua central” trecho de O Duelo, in Folha de S. Paulo, 19/09/03

E isso acontece repetidas vezes. Quando as idéias se esgotaram, Torero comenta que Lelê, seu sobrinho imaginário, poderia substituí-lo na coluna da semana, como já fez diversas vezes. Ou então Torero traria Zé Cabala, suas histórias e personagens. A preocupação na escrita de um comentário é tão grande que vira quase o comentário em si. 

Mas atente, leitor! Mais do que uma coluna confessional, isso é um truque para driblar a mesmice do jornalismo esportivo. Seria como uma análise que utiliza a ferramenta empregada naquilo que está sendo analisado. 

2) Para incluir o leitor

Claro que ninguém escreve para não ser lido. Ninguém faz um filme para não ser visto. Para Torero, é mais que apenas ser percebido, é pressupor a participação do leitor nessa empreitada. A “Toreroteca” do blog , os textos dos internautas postados semanalmente aos domingos , a linguagem impessoal, os comentários das postagens e as enquetes são apenas algumas das ferramentas usadas para incluir você, querido leitor, no que Torero faz. Ao se ver no texto, o leitor se interessa mais. Sim, um ímpeto de egocentrismo natural a todos os bípedes com polegares opositores. Mas que funciona (vide os inúmeros comentários do blog).        

É bom imaginar que o jornalista do outro lado do texto pensou em vocês, admiradores do caderno esportivo, para redigir os parágrafos. E Torero pensa, sim, em vocês. Ou pelo menos, finge que pensa. Torero também prepara o leitor para o que virá em seguida. É um anúncio que fica engraçado e dá a noção de que o jornalista está aí na sua frente, e não que aquele texto foi escrito horas antes de você abrir as páginas do jornal. 

“Caro leitor, cara leitora, sentem-se confortavelmente. vou contar-lhes uma história” Anãozinho, o quase gigante in Folha de S. Paulo, 02/08/02

É aqui também que o jornalista se firma em uma suposta resposta, escrevendo o texto de acordo com a reação que o leitor imaginado por ele teria. Sabe aquele tipo de texto que necessita de um resposta imediata? Esse tipo mesmo, em que a frase seguinte responde a anterior, simulando uma resposta do leitor.   

“O leitor deve conhecer algum cara meio feio e muito tonto, mas tão seguro de si que acaba sempre namorando as moças mais interessantes. Sim, eles são odiosos” Fiiiiiiiiiiiiiu… Pou! in Folha de S. Paulo, 06/06/03]

Claro que isso implica em uma condição: a participação de terceiros. Se você não quiser participar, ou simplesmente não estiver afim de, o texto pode soar um tanto pretensioso demais. 

4) Para dar voz a entidades que provavelmente não se pronunciariam no blog/coluna/vídeo*

Ricardo Teixeira, Deus, o Diabo e a Barbie conversam com Torero. Tá, isso não é verdade, mas e daí? Por vezes, é difícil delimitar o que é verdade do inventado em Torero. Mas uma coisa é certa: há sempre uma crítica a se fazer (mesmo que esteja contida em uma suposta carta de Ricardo Teixeira aos leitores da Folha). Torero se desculpa com os leitores. Mas não tanto. 

“PS: Aos leitores que piamente acreditaram nas palavras acima, lembro que hoje é o dia 1º de abril”  Carta aberta ao torcedor in Folha de S. Paulo, 01/04/03

Ricardo Teixeira é motivo de reclamação de uma carta de Torero supostamente destinada ao ministro do Trabalho, por uma interferência do presidente da Confederação Brasileira de Futebol na sua área humorística. 

“(…) é com grande pesar que vejo o senhor Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol, intrometer-se em nossa área. Sim, senhor ministro, porque outra não pode ter sido sua intenção ao dizer que a Copa do Brasil deste ano pode vir a ser disputada por 128 clubes. Creio, portanto, não ser preciso provar que isso é uma piada e que, sendo uma piada, não poderia sair de sua boca sem, pelo menos, a chancela de um humorista responsável” Carta ao ministro do Trabalho in Folha de S. Paulo, 22/02/2000

Agora me responda, esperto leitor. Essa não é uma crítica (com humor, mas ainda sim uma crítica)? Se sim, por que não tem uma grande repercussão quanto uma crítica aberta teria? Porque críticas assim não são levadas a sério. As entrevistas com entes, objetos e sentimentos dos episódios de “Cantos Gerais” que Torero participou são, como apontou nosso colega de blog, uma maneira de expor as opiniões sem dar a cara pra bater. Ou de se posicionar sem levantar reações negativas. 

“Caro colunista. Ordeno que você publique essa carta na próxima terça-feira, dia 14 de abril. O motivo é muito simples: é o dia do aniversário de 86 anos do Meu time de coração, o Santos Futebol Clube”  Um aniversário divino in Folha de S. Paulo, 14/04/98

Este é um fragmento de um e-mail que o santista Torero diz ter recebido de “deus@ceu.com”. O texto segue com um breve histórico do Santos, sob a voz de Deus. Imagine agora que um colunista esportivo da Folha resolva defender seu time em detrimento dos demais? Revolta, balbúrdia, bombardeamento de cartas dos leitores e torcedores dos outros times. Mas como não foi ele que falou, está tudo certo. Quatro anos mais tarde, a contraposição de Deus se pronunciaria para reclamar um espaço novamente para o time de coração, o Santos. 

“Sendo assim, aviso-lhe faltam poucas prestações para que o Santos resgate sua dívida e volte ser um vencedor. Aí, com mil eus!, voltarei a ser mais um torcedor aqui das profundezas, um torcedor que, como você e como tantos outros, quer apenas ver o Santos sendo campeão. É tudo. Aceite, por favor, um caloroso abraço deste seu futuro anfitrião, Lúcifer”  Um aniversário infernal in Folha de S. Paulo, 12/04/02

*está certo, provavelmente não se pronunciariam porque alguns não têm sua existência comprovada.

5) Para falar sem dizer o mesmo

“O que você prefere, glutão leitor? O que é que mais gosta, faminta leitora? Comer a mesma comida todos os dias ou variar? Se você não é um leão, uma hiena ou um gaúcho, certamente preferirá a segunda opção. No entanto, se o assunto é esporte, nós, os brasileiros, somos monocultores, monocórdicos e monótonos. Só queremos saber de futebol”  Peixe cru e queijo mofado in Folha de S. Paulo, 04/08/03

Como falar de esporte sem citar o futebol, no país que não foi o criador da modalidade, mas que vive de futebol a semana inteira? Em “Peixe cru e queijo mofado”, há esse questionamento. Ser jornalista esportivo no Brasil já é complicado. Basta dar uma olhada nas páginas de esporte dos ditos grandes jornais e comparar o espaço dedicado ao futebol e a qualquer outro. Agora, ser um comentarista de futebol por tantas rodadas sem fazer textos idênticos (mudando apenas o resultado e times) parece quase impossível. 

Neste ponto, a forma adquire sim uma importância no jornalismo. Trabalhar com ela é fundamental para não dar aos jornais a mesma cara de manual de redação.     

“…aposto que há vezes em que você nem passa os olhos por estas páginas esportivas. Ou, se passa, dá apenas uma olhada rápida nas notícias sobre seu time. Aposto que há dias em que você acorda um tanto mais sério e prefere ler o Clóvis Rossi, os editoriais, e os últimos acontecimentos no Brasil e no mundo. No dia do atentado ao WTC, por exemplo, só um fanático procuraria saber se o seu zagueiro tinha recebido o terceiro cartão amarelo. O esporte, nestes dias, fica relegado à sua desimportância. Pois confesso que comigo se dá o mesmo” Seda chinesa in Folha de São Paulo, 02/04/02 

E a impessoalidade do jornalismo, cadê? Ele fica lá em um cantinho, junto com os demais textos jornalísticos, esportivos. Sim, aqueles que você apenas passa o olho sem efetivamente ler. 

Até uma outra hora. 

Atenciosamente.

V.





A Ira

7 12 2008

Ao leitor preguiçoso, desde já fique avisado: tratarei aqui do livro Xadrez, Truco e Outras Guerras (Ira), que é obviamente de José Roberto Torero – caso você tenha chegado agora e ainda não saiba, este blog é sobre o trabalho dele. Mas, se você não sabe disso, que diabos está fazendo aqui? 

Voltando, leitor: olha só, se você não leu o livro, ou se não tem paciência para ler sobre coisas que desconhece, o que evidentemente é culpa sua, pule para o próximo post e seja feliz, se conseguir. E se a maneira como tais condições estão sendo colocadas te ofendem, tanto melhor. Este é um livro sobre a ira dos homens.

Segundo volume da Coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva, a obra apresenta um cenário que, ainda que livremente inspirado na Guerra do Paraguai, poderia ser atribuído a qualquer guerra, pois não há, ao contrário de outros livros de Torero (como Chalaça) nenhum compromisso com o rigor histórico. E sua intenção é esta mesmo: mostrar o caráter ordinário da ação humana frente às decisões que dão rumo a nosso curso na Terra, e como normalmente estas são mais influenciadas por nosso desejo de reconhecimento do que pelos motivos alegados nas entrelinhas oficiais.

O Rei, que decide pela guerra não por ira aos invasores, mas por amor ao poder que, caso assim não agisse, estaria ameaçado; o General, que vai ao front não por ira aos inimigos, mas pela estima ao renome que adquirira em outros tempos; o Coronel, que invade o país vizinho essencialmente pela cobiça de títulos e uma eventual subida de cargo.

A obra, que se insere entre as mais “escuras” e densas de Torero, traz em sua linha narrativa um texto criado em vias de sarcasmo cruel, onde a mulher que recebe carta da morte do marido chora sua dor enquanto, em regozijo, nota passagens que exaltam a coragem do falecido para as vizinhas.

O humano sempre movido não pela causa primeira, mas pelo interesse escuso. O aflorar da ira se alimenta, em grande parte, da vaidade dos homens (outro pecado), combustível que os atira às frentes de batalha, onde os mandantes observam e os subordinados buscam a glória anônima, em vôos cegos estimulados pela glória do porvir.





A última impressão é a que fica

3 12 2008

A morte. O que seria o fim, para Torero é um motivo para produzir conteúdo. Tema recorrente em sua obra, ora é o ponto central, ora o ponto de partida – chegando a ser, inclusive, a protagonista da história. As abordagens têm em comum o humor, em gradações diferentes, e a sinceridade, que por vezes chega a ser desconcertante.

No curta-metragem “Morte.”, um casal simpático de idosos decide, passo-a-passo, os preparativos para sua morte. Note-se que, enquanto o amor é uma exclamação, a morte se resume a um ponto final. O sinal gráfico nesse caso indica também a concepção tradicional que temos dela, aspecto que Torero procura refutar o máximo possível. Até ela, a morte, pode ser abordada de maneira divertida, como atesta Torero.

A brincadeira reside justamente em colocar o absurdo em relação a ela, como a própria preocupação do casal em deixar tudo pronto para o dia que morrerem, a procura por novidade ao escolher o leito e o túmulo ou a escolha de uma estátua de mármore por ter mais vida que uma de bronze.

“E essas daqui?”, pergunta a simpática senhora. “Eu fico mal de roxo”, diz o homem. Compra de camisetas? Não, escolha das flores do caixão. Para este, aliás, a decisão foi similar à compra de um carro em uma concessionária. Um que seja resistente, o que daria um caráter mais definitivo a coisa toda, mas bonitinho e com dois anos de garantia. Eles também ensaiam o velório, como se fosse o de um casamento.

Torero desconstrói, através de seu casal de velhinhos, a idéia de que a morte, embora tenha seus sofrimentos, deva obrigatoriamente ser levada a sério. “Sem falar que é muito batido”, diria um dos personagens sobre o tradicional na morte. O casal em questão se pergunta se algo alegre demais seria adequado para a ocasião. É o questionamento do que eles interiorizaram como norma e agora refutam. Para o espectador, é o incômodo ao ver como um casal pode administrar sua morte como quem faz uma compra de supermercado.

Questionado pela mulher se um túmulo com plantas seria adequado à necessidade por algo mais vivo que estátuas, o marido responde “mas é difícil de manter”. Essa não é uma resposta pontual e se liga à idéia do final do curta de o que fazer nesse intervalo entre nascer e morrer

Isso não exclui o medo, que no curta usa figurinos diversos. A procura por tantos detalhes com caixão, túmulo, testamentos, objetos e velório vira uma forma de tentar adiar o dia que baterão o cartão pela última vez. Como se a consciência e estar preparado fossem suficientes para contorná-la; representariam uma fuga de encarar o medo diante do desconhecido – que não é morrer, já que isso é certo que aconteça, mas a morte. Mas o casal consegue transformar aquilo que era uma desvantagem, ou seja, o receio da morte, em algo que possa ser proveitoso – mesmo que a diversão venha da escolha de seu próprio túmulo.

O curta inteiro traz um esboço de sorriso e não risadas abertas. Primeiro, por causa do tema, e segundo porque as piadas não são escancaradas. Residem mais no humor obtido no absurdo, na quebra de expectativa. O tom irreverente se dá quando o casal está na igreja, para decidir qual seria a música ideal – o músico, que tem traços sádicos e guarda suas particularidades, é o garoto-propaganda da Bombril. Aqui, novamente é o esquisito que dá o humor. O músico traz uma estranheza, que sempre nos diverte quando não assusta. O prazer que teria em tocar para eles seria, no mínimo, incoerente, já que não iriam ouvir de qualquer forma – ele, claro, pede pagamento adiantado pelo serviço. Além disso, prazer e morte não é uma associação das mais comuns.

O único momento de não-riso é quando eles adotam a postura natural que as pessoas têm diante da morte. Em tom confessional, o foco sai das escolhas que se fazem (aspecto mais externo) para as emoções e o que está sendo dito. A impotência de decidir quando ocorrerá a morte, mesmo tendo consciência que ela virá, um dia, deixa os velhinhos de ombros encolhidos.

A vida sim é o problema central dos velhinhos, que passaram ocupar parte dela com a morte. Eles arrastam um viver cheio de dúvidas, cuja síntese está na frase final da produção. “E o que a gente faz até lá?”, ou seja, a vida? O curta termina, sem indicar na tela, com reticências.